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Antes de saber se a limonada é gostosa, precisamos conhecer o limão. Esta metáfora singela carrega uma verdade profunda: não podemos avaliar o resultado final sem compreender a essência dos elementos que o compõem. Além disso, quando falamos de propósito — essa palavra que reverbera nas profundezas da alma humana — estamos falando da essência mesma da nossa existência.

O Que É Propósito? A Pergunta que Atravessa Séculos

Propósito é objetivo. É finalidade. Em resumo, é a resposta à pergunta ancestral: “Por que estou aqui?”

Desde os diálogos socráticos até os romances existencialistas de Sartre, desde as crônicas de Machado de Assis até a introspecção visceral de Clarice Lispector, a humanidade busca decifrar esse enigma. Por exemplo, Fernando Pessoa multiplicou-se em heterônimos tentando capturar os múltiplos propósitos que habitam uma única alma. A literatura não é apenas arte — é a tentativa desesperada e bela de dar sentido ao caos da existência.

Mas aqui está o ponto: o propósito não é monolítico. Ele se desdobra, se ramifica, se manifesta em camadas que precisamos desvendar para compreender plenamente nossa jornada.

A Tríade Sagrada: Vida, Missão e Destino

1. Propósito de Vida: O Despertar Diário

“O que me faz acordar todos os dias? O que mantém acesa a chama da minha existência?”

O propósito de vida é a força motriz, aquela corrente subterrânea que pulsa mesmo quando não a reconhecemos conscientemente. Para alguns, é criar. Para outros, é conectar. Há quem encontre seu propósito em curar, em construir, em ensinar.

Para o escritor, o propósito de vida frequentemente se revela através de uma urgência narrativa — a necessidade quase fisiológica de transformar experiência em palavra, silêncio em história, vazio em significado. Em outras palavras, não escrevemos porque queremos; escrevemos porque não podemos não escrever.

Exemplos de Propósito de Vida em Grandes Escritores

Clarice Lispector confessou certa vez que escrevia como quem busca compreender-se. Machado de Assis usou a ironia afiada para dissecar a sociedade brasileira. Gary Shteyngart captura a experiência do imigrante com humor melancólico. Consequentemente, cada um encontrou na escrita não apenas um ofício, mas uma razão de ser.

2. Propósito de Missão: A Ação Específica

Se o propósito de vida é o “porquê”, o propósito de missão é o “como” — a manifestação concreta da nossa essência no mundo.

Considere este exemplo poderoso: “Meu propósito de vida é ajudar pessoas através da escrita. Portanto, sou escritor.”

Veja a clareza dessa construção:

A missão é a ferramenta escolhida (ou que nos escolheu) para cumprir o propósito maior. Por analogia, é o pincel do pintor, o bisturi do cirurgião, a voz do professor. Para quem escreve, as palavras são simultaneamente instrumento e templo.

Como Grandes Autores Definiram Sua Missão

F. Scott Fitzgerald usou sua missão de escritor para capturar a decadência brilhante da Era do Jazz. Importante notar: sua missão não era apenas “escrever”, mas revelar a fragilidade humana sob o verniz da opulência. A missão sempre carrega um “para quê” — um impacto desejado, uma transformação almejada.

3. Propósito de Destino: A Jornada Necessária

“São as experiências que precisamos atravessar para que nosso propósito se cumpra.”

Aqui reside a compreensão mais madura do propósito: não escolhemos apenas luzes, mas também sombras. Além disso, o destino é a soma das experiências — boas, ruins, devastadoras, extáticas — que moldam o artista, o escritor, o ser humano.

As Cicatrizes que Formam o Escritor

Não existe grande escritor sem cicatrizes. Não existe prosa profunda sem o mergulho nas águas turvas da existência. Portanto, o escritor precisa:

👉 Vivenciar a alegria — para capturar o júbilo autêntico
👉 Atravessar a dor — para compreender a vulnerabilidade humana
👉 Experimentar a perda — para entender o vazio que dá forma ao significado
👉 Conhecer o amor e a desilusão — para escrever sobre o coração com honestidade

Machado de Assis não teria criado Brás Cubas sem conhecer a amargura existencial. Da mesma forma, Clarice Lispector não teria parido A Paixão Segundo G.H. sem confrontar o absurdo da existência. Em conclusão, o destino é pedagógico — ensina através do vivido.

O Escritor e Seu Propósito: Um Pacto com a Transformação

Quando alguém declara “Fui chamado para ser escritor com a finalidade de ajudar muitas pessoas”, está fazendo um pacto sagrado:

✅ Reconhece sua missão — a escrita não como hobby, mas como vocação
✅ Aceita o destino — as experiências necessárias para desenvolver o ofício
✅ Compromete-se com o propósito de vida — usar a palavra como instrumento de transformação

Mas atenção: ajudar através da escrita não significa necessariamente escrever textos motivacionais ou autoajuda. Por exemplo, Shakespeare “ajudou” revelando a complexidade humana em sua glória e horror. Kafka “ajudou” dando forma ao absurdo kafkiano que todos sentimos. Portanto, cada escritor ajuda à sua maneira — alguns consolam, outros perturbam. Ambos são necessários.

Como Descobrir Seu Propósito como Escritor?

Se você se pergunta “qual é meu propósito?”, considere estas reflexões:

Pergunta 1: Sobre o Que Você Não Consegue Parar de Pensar?

Os temas recorrentes nas suas reflexões são pistas do seu propósito de vida. Além disso, esses temas revelam o que realmente importa para você.

Pergunta 2: Que Tipo de História Só Você Pode Contar?

Sua bagagem única — cultural, emocional, experiencial — define sua missão específica. Em outras palavras, ninguém tem sua combinação exata de vivências.

Pergunta 3: Quais Experiências Marcaram Você Profundamente?

Seu destino já está em andamento. Consequentemente, as cicatrizes e vitórias são matéria-prima para sua escrita.

Pergunta 4: Que Transformação Você Deseja Provocar no Leitor?

Fazer rir? Fazer pensar? Fazer sentir menos sozinho? Esta é sua bússola — o norte que guia sua escrita.

O Propósito em Movimento: Vivendo a Tríade

O propósito não é estático — é uma dança entre vida, missão e destino:

🔹 Seu propósito de vida te chama
🔹 Seu propósito de missão te direciona
🔹 Seu propósito de destino te prepara

No centro dessa tríade, você escreve. Cada palavra é um passo na jornada. Cada história é uma oferenda ao propósito maior. Finalmente, cada frase é uma tentativa de responder àquela pergunta primordial: “Por que estou aqui?”

Palavras Finais: O Propósito Nunca Termina de Se Revelar

Se você é escritor — ou sente o chamado para sê-lo — compreenda: seu propósito não é uma meta a alcançar, mas um caminho a percorrer. A cada livro escrito, a cada personagem criado, a cada leitor tocado, você está cumprindo sua tríade.

Antes de saber se a limonada do seu propósito é gostosa, você precisou conhecer o limão — conhecer-se, compreender sua essência, aceitar sua missão. Agora, com esse conhecimento, você pode criar a bebida que só você sabe fazer.

E quando um leitor, em algum lugar, provar dessa limonada e sentir que sua sede existencial foi saciada — mesmo que por um instante — você saberá: seu propósito está se cumprindo.

Conclusão: Seu Propósito Te Espera

“Escrever é uma forma de sangrar no papel para que outros vejam que suas feridas também podem virar arte.”

💡 Seu propósito te espera — não nas respostas fáceis, mas nas perguntas corajosas que você ousa fazer através da sua escrita.

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